{"id":1610,"date":"2015-10-01T15:52:35","date_gmt":"2015-10-01T15:52:35","guid":{"rendered":"http:\/\/textocon.com\/wp\/?p=1610"},"modified":"2016-01-05T20:33:00","modified_gmt":"2016-01-05T20:33:00","slug":"religiosidade-quebra-paradigmas-na-gestao-de-pessoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/textocon.com\/?p=1610","title":{"rendered":"Religiosidade quebra paradigmas na gest\u00e3o de RH"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maroni J. Silva *<\/strong><\/p>\n<p>A desconstru\u00e7\u00e3o do pacto neoliberal europeu, cujas consequ\u00eancias se refletem na economia mundial, evidencia a perman\u00eancia de parte das tens\u00f5es e expectativas geradas pela transi\u00e7\u00e3o do fordismo para a economia flex\u00edvel a partir dos anos de 1990. Contudo, ao mesmo tempo em que esse per\u00edodo imp\u00f4s desafios aos empreendedores for\u00e7ou \u00e0s empresas inseridas na globaliza\u00e7\u00e3o a se reinventarem. Por meio da criatividade, inova\u00e7\u00e3o e ousadia as sobreviventes sa\u00edram fortalecidas da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, consolidaram posi\u00e7\u00f5es adquiridas no mercado globalizado e conquistaram novos nichos de neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Neste salve-se quem puder, surgiram algumas tecnologias de gest\u00e3o inusitadas, como a internaliza\u00e7\u00e3o da religiosidade nas empresas, mediada pelas culturas organizacionais. A estrat\u00e9gia visa mobilizar energias sagradas e ps\u00edquicas por meio de a\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, despertando a motiva\u00e7\u00e3o e a proatividade de funcion\u00e1rios em favor dos interesses e metas econ\u00f4micas das empresas, conforme abordagem deste texto elaborado a partir do estudo de caso descrito no meu livro Magazine Luiza Neg\u00f3cio &amp; Cultura.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1611\" src=\"https:\/\/textocon.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/533-149.jpg\" alt=\"533 149\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/textocon.com\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/533-149.jpg 640w, https:\/\/textocon.com\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/533-149-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><br \/>\nCr\u00e9dito: Magazine Luiza.<\/p>\n<p>O mito caipira da boa vizinhan\u00e7a presente na cultura interiorana de S\u00e3o Paulo, o qual deu suporte sociocultural ao Magazine Luiza, desde sua funda\u00e7\u00e3o, em 1957, at\u00e9 a reestrutura\u00e7\u00e3o, em 1991, acabou sendo incorporado a uma nova vis\u00e3o de mundo, em que a cren\u00e7a e a f\u00e9 foram reificados, destacando-se entre seus valores corporativos. Este novo <i>ethos<\/i> onde as fronteiras entre o sagrado e o profano s\u00e3o cada vez mais fluidas, criou as condi\u00e7\u00f5es para uma quebra de paradigma na gest\u00e3o de pessoas, facilitando a intera\u00e7\u00e3o social por meio de rituais simb\u00f3licos.<\/p>\n<p>Com isso, ao inv\u00e9s de administrar o conflito latente entre capital e trabalho por meio de regras r\u00edgidas nem sempre eficazes no estabelecimento de consensos, a empresa instituiu rela\u00e7\u00f5es flex\u00edveis na gest\u00e3o mediadas pela religiosidade. Esse processo apropriou-se do pertencimento religioso dos funcion\u00e1rios, buscando criar um clima de ades\u00e3o, cordialidade e, consequentemente, de maior produtividade.<\/p>\n<p>Tal receita vem fazendo escola nas chamadas ci\u00eancias da administra\u00e7\u00e3o e se propagando entre as novas pr\u00e1ticas de gest\u00e3o, ancoradas no \u201cparadigma econ\u00f4mico plural\u201d, assim denominado em Globaliza\u00e7\u00e3o e Diversidade Cultural, pelo economista Hassan Zaoual, professor da Universit\u00e9 du Littoral, da Fran\u00e7a. Sua abordagem ressalta os sistemas de representa\u00e7\u00f5es, pertencimento cultural e aprendizagem organizacional categorias estruturantes do paradigma.<\/p>\n<p>Entram em cena, portanto, valores invis\u00edveis ou, mais especificamente, simb\u00f3licos, que passam a influenciar fortemente a sociedade e as organiza\u00e7\u00f5es de modo especial na p\u00f3s-modernidade. Tais fen\u00f4menos impactam fortemente o mundo dos neg\u00f3cios globalizados, pontuado por dimens\u00f5es culturais que v\u00e3o delineando os contornos sociol\u00f3gicos do modo de produ\u00e7\u00e3o flex\u00edvel.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo e religi\u00e3o, como se sabe, teve o soci\u00f3logo Max Weber como grande estudioso e inspirador atrav\u00e9s de sua obra cl\u00e1ssica \u00c9tica Protestante e o Esp\u00edrito do Capitalismo. O livro analisa a g\u00eanese desse processo de produ\u00e7\u00e3o, na Alemanha, na passagem do s\u00e9culo XIX para XX. Mas o respaldo te\u00f3rico mais ressente surgiu na Fran\u00e7a, em 2009, por meio do livro O Novo Esp\u00edrito do Capitalismo, escrito pelo soci\u00f3logo Luc Boltanski e pelo especialista em gest\u00e3o e sociologia \u00c8ve Chiapello.<\/p>\n<p>Inspirados tamb\u00e9m em Weber, eles caracterizam fatores sociais, culturais e pol\u00edticos contempor\u00e2neos que constituem parte do novo esp\u00edrito do capitalismo. Trata-se de uma superestrutura que se apresenta para fortalecer esse modo de produ\u00e7\u00e3o por meio de rela\u00e7\u00f5es aparentemente difusas e simb\u00f3licas entre capital e trabalho no mundo globalizado. A pesquisa baseou-se na performance da economia francesa, cujas mudan\u00e7as, segundo eles, retratam a evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo mundial como um todo. Esse novo est\u00e1gio lhe permitiu n\u00e3o apenas integrar as cr\u00edticas anticapitalistas, inclusive do movimento social de 1968, como tamb\u00e9m cooptar parte importante dos atores e sujeitos sociais que ousaram enfrentar o <i>status quo<\/i>, em maio daquele ano.<\/p>\n<p>A religiosidade em si \u00e9 amplamente discutida como uma categoria social que faz parte da vida humana, inclusive de n\u00e3o praticantes de nenhuma doutrina espec\u00edfica. Quanto a sua presen\u00e7a nas empresas tematizada em minha pesquisa de Doutorado, a religiosidade encontra respaldo tamb\u00e9m em uma esp\u00e9cie de reencantamento do mundo que parece inserida na Teologia da Prosperidade. De acordo com essa filosofia praticada em cultos de inspira\u00e7\u00e3o neopentecostais, como se observa inclusive nos rituais do Magazine Luiza, pela f\u00e9 \u00e9 poss\u00edvel construir o Para\u00edso aqui na terra, por\u00e9m representado pelo acesso ao mundo dos bens e \u00e0 mobilidade social.<\/p>\n<p>Por sua frequ\u00eancia, o Rito da Comunh\u00e3o abordado no meu livro representa, talvez, o mais significativo em termos de refor\u00e7o da cultura da empresa, embora existam outros eventos semelhantes. Este realiza-se em cada uma das lojas, unidades e departamentos da empresa, todas as segundas-feiras, antes do expediente. Nessa oportunidade, os funcion\u00e1rios se concentram, dramatizam din\u00e2micas de motiva\u00e7\u00e3o que \u00e0s vezes envolvem performances corporais ou cita\u00e7\u00e3o de mensagens de autoajuda, pronunciada em voz alta, em discurso ou palavra de ordem, cantam os hinos Nacional e o da empresa, lembram os aniversariantes do m\u00eas, comemoram os resultados de vendas ou choram por n\u00e3o alcan\u00e7ar as metas estabelecidas.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, de m\u00e3os dadas, formam um c\u00edrculo semelhante \u00e0s correntes de f\u00e9 que acontecem em rituais religiosos de perfil pentecostal que muitos frequentam em suas respectivas igrejas onde buscam refor\u00e7o espiritual, inclusive para serem funcion\u00e1rios admirados e \u201cde valor\u201d. Neste momento, rezam o Pai Nosso, de cabe\u00e7a inclinada para o ch\u00e3o quando alguns, de olhos fechados, renovam seus prop\u00f3sitos com o sagrado ou Absoluto, como \u00e9 denominado internamente.<\/p>\n<p>As diferentes vis\u00f5es de mundo cultuadas por cat\u00f3licos, evang\u00e9licos e todas as demais representa\u00e7\u00f5es religiosas presentes o Magazine Luiza aparentemente se harmonizam por meio do Jeito Luiza de Ser que sintetiza seu DNA ou \u201calma da empresa\u201d. No interior desse cosmo prevalece a no\u00e7\u00e3o de que trabalho e religi\u00e3o comungam o mesmo objetivo, ou seja, o bom desempenho econ\u00f4mico da empresa, tido como \u00fanica condi\u00e7\u00e3o capaz de concretizar a materialidade e garantir o acesso ao \u201cParaiso\u201d terreno para patr\u00f5es e empregados.<\/p>\n<p>*Maroni J. Silva \u00e9 jornalista, soci\u00f3logo, mestre e doutorando em Antropologia pelo Programa de Estudos P\u00f3s-graduados da PUC-SP, autor do livro Magazine Luiza Neg\u00f3cio &amp; Cultura, lan\u00e7ado pela Editora Olho D\u00b4\u00c1gua, e s\u00f3cio-diretor Textocon Comunica\u00e7\u00e3o &amp; Cultura Organizacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maroni J. Silva * A desconstru\u00e7\u00e3o do pacto neoliberal europeu, cujas consequ\u00eancias se refletem na economia mundial, evidencia a perman\u00eancia de parte das tens\u00f5es e expectativas geradas pela transi\u00e7\u00e3o do fordismo para a economia flex\u00edvel a partir dos anos de 1990. 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